30 Jul 2009

Helena Matos 2


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3 comments:

Fado Alexandrino said...

Entre a demisssão de Campos e Cunha, em Julho de 2005, e a entrevista do reitor da UnI, em Fevereiro de 2007, Sócrates parece imune às críticas. O país vive de anúncios tecnológicos e de garantias de que, na economia, o pior já passou.
Agosto de 2005 - A nomeação, por Teixeira dos Santos, de Armando Vara como administrador da CGD suscita dúvidas sobre a transformação futura deste banco num instrumento governamental. No imediato, esta nomeação gera mal-estar entre Sócrates e Jorge Sampaio, pois o PR não só não fora avisado previamente desta decisão como Armando Vara está longe de lhe merecer confiança. Os incêndios devastam o país. Ao contrário do que sucedeu em anos anteriores, não se culpa o Governo e muito menos o primeiro-ministro, que, no caso, se mantém de férias no Quénia. Mário Soares anuncia a sua candidatura à Presidência da República.
Setembro de 2005 - Sócrates carrega no botão - simulado, mas isso por agora não conta - que detona a implosão das Torres de Tróia, esse símbolo do turismo de massas. O Governo considera estratégicos projectos turísticos de luxo como os anunciados para a Herdade do Pinheirinho e Costa Terra. O turismo de massas deixa de ser socialista.
Outubro de 2005 - O PS perde as autárquicas para o PSD, mas Sócrates continua a ganhar na imagem que projecta de si: Marques Mendes será sempre visto como um derrotado e Sócrates como um vencedor. Cavaco Silva anuncia a sua candidatura à Presidência da República.
Novembro de 2005 - A rubrica da despesa gera novas dúvidas sobre os números apresentados no orçamento rectificativo. Demitem-se o coordenador e grande parte da equipa do Plano Tecnológico. Dias depois destas demissões, Sócrates apresenta o Plano Tecnológico e o PS inviabiliza a ida ao Parlamento do antigo e do novo coordenador do Plano Tecnológico.
Sócrates desmente ter proposto ao PR a demissão de Souto Moura (o Sol divulgará em 2007 escutas telefónicas que confirmaram não só que Sócrates tentara afastar Souto Moura como que, para tal, contava também com o apoio de Paulo Portas). O Governo cria uma comissão para avaliar os manuais escolares cujo programa de reutilização suspende; anuncia que vai ser divulgada a lista dos contribuintes com dívidas fiscais e apresenta como facto consumado o aeroporto a ser construído na Ota. Mário Lino revela que o Governo "já tem um conjunto de ideias" para os terrenos que ficarão vagos na Portela. Manuel Alegre formaliza a sua candidatura a Belém.
Dezembro de 2005 - O Governo apresenta o projecto para o TGV. Freitas do Amaral é um dos ministros mais loquazes e polémicos. O primeiro-ministro paira acima de tudo isto e, de férias na neve, sofre um acidente que o faz andar de muletas. Politicamente, tem razões para fazer um saldo nada manco do ano que agora finda.

Fado Alexandrino said...

Janeiro de 2006 - Cavaco Silva ganha as presidenciais. O PS volta a perdê-las, o que não é o mesmo que dizer que este resultado fosse o menos desejado por Sócrates. Sócrates será criticado pelos soaristas por não ter radicalizado a campanha contra Cavaco. Sobre o papel de Sócrates nesta campanha, dirá Soares: "Nós não devemos pedir às pessoas aquilo que elas não nos podem dar".
No papel de primeiro-ministro que veio para ficar, Sócrates não é de modo algum beliscado pelo caso Eurominas, que trazia sob suspeita de tráfico de influências nomes grados do guterrismo, como António Vitorino e José Lamego, e muito menos por um caso com laivos de anedota: o Instituto de Gestão Financeira e Patrimonial da Justiça, para o qual o Governo de Sócrates nomeara como presidente António José Morais, contratara sem concurso para o lugar de responsável pelo departamento de logística a cidadã brasileira Neidi Becker, até aí funcionária de um simples restaurante especializado em frangos. António José Morais foi prontamente demitido na sequência deste caso.
Fevereiro e Março de 2006 - O Governo classifica como "grosseiramente falsa" a notícia da Visão que diz existir na dependência de José Sócrates um gabinete paralelo e ilegal dos serviços de informação. O assunto é depressa ultrapassado pelo anúncio vertiginoso das medidas governamentais: parceria com a Microsoft, acordo com o MIT, o modelo pedagógico finlandês, reformas da administração pública e da Segurança Social, esta última definida por Sócrates como "a mais ambiciosa da Europa". Simultananeamente, o país vive com a ansiedade dos grandes momentos o que parece ser uma catástrofe anunciada: a gripe das aves.
Abril a Junho de 2006 - Santos Cabral é demitido do cargo de director nacional da PJ. Perda de confiança política foi a explicação avançada pelo Governo para esta decisão. A reabertura das minas de Aljustrel, a subida do indicador da OCDE respeitante a Portugal, a par da entrada do país naquilo que o primeiro-ministro define como o "clube restrito dos países europeus" que têm cobertura de Internet em banda larga reforçam a imagem de dinamismo do executivo cada vez mais centrado no primeiro-ministro. Para "combater a info-exclusão" Sócrates anuncia o ViaCTT, que visava dar uma caixa de correio electrónico a cada português. Ninguém se interroga sobre os milhões de euros investidos e muito menos sobre a razoabilidade de muitos destes investimentos.
Julho a Setembro de 2006 - José Sócrates tem razões para estar satisfeito. Garante que a economia cresceu muito acima de todas as expectativas e o assunto Freeport parece finalmente encerrado: foram acusados do crimes de violação de segredo de justiça os dois jornalistas e o ex-inspector da PJ que, em 2004, divulgaram as informações que sugeriam negociação de contrapartidas para o PS a troco do licenciamento do Freeport. Quanto às acusações de governamentalização da RTP, formuladas pelo comentador Eduardo Cintra Torres com base na cobertura dos incêndios de Verão, essas servem sobretudo para revelar o entendimento que a novel ERC tem do seu papel.
Outubro a Dezembro de 2006 - Os militares protestam mas as suas reivindicações surgem quase anacrónicas no país do plano tecnológico. Reeleito secretário-geral do PS com cerca de 97,2 por cento dos votos, José Sócrates parece imbatível no partido e no Governo. Cavaco Silva elogia o espírito reformista do executivo e, no Natal, Sócrates garante que a economia, as contas públicas e o emprego estão a melhorar "passo a passo".

Fado Alexandrino said...

Janeiro e Fevereiro de 2007 - Na viagem à China, temos Sócrates desportista fazendo jogging com quatro graus negativos e Sócrates ponderado no meio das declarações desastradas de Manuel Pinho sobre os baixos salários dos portugueses. Uma vez regressado ao país, Sócrates chama a si o dossier do fecho das urgências hospitalares, que queimava Correia de Campos. O referendo sobre o aborto dá-lhe aquela que, após a sua eleição, foi até agora a única vitória de Sócrates numa consulta nacional.
28 de Fevereiro - O então reitor de uma universidade em crise, a UnI, dá uma entrevista ao 24 Horas. Garante que se lembra que foi professor de Inglês Técnico do actual primeiro-ministro. No blogue Do Portugal profundo, António Balbino Caldeira recupera um post que publicara várias vezes em Fevereiro e Março de 2005, após a vitória de Sócrates nas legislativas. Nesse post declarava que José Sócrates não era engenheiro e não tinha a pós-graduação em Engenharia Sanitária que constava no seu curriculum. Em 2005, esse post não suscitara qualquer reacção. A 28 de Fevereiro de 2007, republica-o e interroga-se sobre o que pretende o reitor com essas declarações que deve saber que não correspondem à realidade. Desta vez, a blogosfera reage. Fazem--se centenas de comentários e links. Durante dias e dias a notícia vive exclusivamente nos blogues. Só semanas depois chegará aos media tradicionais. Por ironia, o estado de graça do primeiro-ministro que potencializara politicamente a aposta nas novas tecnologias terminava quando a novíssima, desregulada e livre blogosfera foi capaz de impor um assunto às previsíveis, muito conformadas e auto controladas agendas dos media tradicionais. (continua)